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Como aprendi a ser homem — minha relação com mulheres e sexualidade

Este relato não vai ser fácil de escrever, mas sei que estarei leve no fim. Também não é de fácil digestão, mas espero que te traga alívio e compreensão. Enfim, ele precisa ser escrito.


ATENÇÃO: Esse texto pode conter gatilhos para pessoas que passaram por situações de assédio.


Apresento aqui minha vivência de homem reconhecido pela sociedade como heterossexual. É importante ressaltar que essa não é a única possibilidade de ser homem, e sim a minha experiência.


Nota: Agradeço de coração meu pai e os demais homens que participaram da minha criação, sei que deram o seu melhor para me educar e me preparar para o mundão.


Quando crianças, uma das primeiras palavras que eu e meu irmão aprendemos foi “puta”. Sei disso não porque eu lembro, mas porque escutei uma gravação de fita cassete em que um de nós dois fala essa palavra e todos adultos dão risada — imagine como uma criança se sente ao falar uma só palavra e ver todos rirem, deve ser uma sensação incrível.


Mais tarde, aprendi um dos meus primeiros palavrões: filha da puta. Me pareceram palavras muito poderosas, que eu só usaria em uma situação drástica, em que eu realmente quisesse ofender alguém, mas logo virou uma expressão de uso comum, que usei muitas vezes para me referir a meus amigos, em tom de brincadeira.


Ainda no jardim de infância, me lembro também que eu tinha uma namorada. Na verdade não sabia bem o que eu estava fazendo, só me lembro que quando nós ficávamos de mãos dadas todas pessoas adultas em volta achavam uma graça: nos elogiavam, faziam carinho, tiravam fotos de nós. Me lembro até de tentar dar um beijo de língua (eu tinha uns 5 ou 6 anos) e de ter uma sensação muito estranha, não muito agradável.


Foi pelos 10 anos de idade que aprendi a “atolar” as meninas. Alguém me ensinou que tocar no corpo delas era divertido, e eu me safaria contanto que elas não vissem que fui eu. Em festas desenvolvi uma técnica para isso, foi tão boa que nunca fui pego (ou pelo menos eu nunca soube).


Uma vez saímos em grupo para atolar. Éramos crianças, e juntamos todos os meninos da turma em formato de corredor, uns 10 de cada lado, com um espaço no meio. Quando qualquer mulher (tivesse 11 ou 50 anos) passava pelo corredor nós atacávamos juntos de surpresa. Elas não podiam fazer nada, simplesmente gritavam e tentavam correr. Depois do ataque nós ríamos e nos contávamos em que parte do corpo cada um tinha conseguido tocar.


Se você já foi assediada dessa ou de outra forma, eu te peço perdão: escrevo esse texto para que meu filho não assedie a sua filha. Escrevo para que eu e todos homens saibam que não temos permissão para tocar outro corpo.


Conforme fui crescendo a pressão para beijar meninas foi ficando cada vez maior. Como namorar no jardim de infância “não conta”, agora era a hora de “ficar” com uma menina. Lá pelos 11 anos eu já escutava do meu irmão (3 anos mais velho) que, com essa idade, ele já tinha ficado com 2 gurias. Depois, com 12 anos, eu escutava dele que, com essa idade, ele já tinha beijado 5 meninas. Com meus 13 anos já eram mais, depois mais, e mais, e mais, até perder as contas. E quem dera esses números viessem só do meu irmão.


Eu andava muito com meu primo (um ano mais velho) e seus amigos, com quem entrei em uma competição maluca sobre “quem seria o último a ficar”. Como tínhamos idades diferentes contávamos pelo dia do nascimento, e me lembro de quando passou o dia em que o último deles tinha beijado, e eu ainda não — me senti um fracassado. Eu era o último.


Você se identifica? Ou você era aquele que já tinha beijado e então pressionava os amigos?


Por essa época comecei a sonhar praticamente toda noite que eu estava ficando com uma menina. E todo dia eu acordava com aquela sensação “que merda, só um sonho de novo”. Alguns dias eu simplesmente não sentia vontade de sair da cama, queria voltar a sonhar que estava beijando uma menina.


Pelos meus 14 anos aconteceu outro episódio marcante na escola: uma professora perguntou para a turma: “Qual é a primeira coisa que você repara em uma pessoa do sexo oposto?”. Fiquei chocado quando uma menina respondeu “Nos calçados”. Achei que estava mentindo, mas ela estava tão segura que depois acreditei. As outras meninas responderam “No rosto”, “No sorriso” ou “Nos cabelos”. Eu não conseguia me decidir se olhava primeiro para a bunda ou para os peitos, mas acabei respondendo outra coisa pra não ser julgado.


De onde vem essa diferença? Dos comerciais, da educação de casa, da educação na escola? De tudo junto?


Nas minhas tentativas de ficar, já que com pessoas próximas não rolava, eu tentava nas festas. Foi numa delas que me ensinaram a “chegar” nas meninas; me disseram: “Chega perto dela e pega no braço dela. Aí pergunta o nome e de que colégio que ela é, puxa um papo qualquer. Depois de um tempo pergunta se ela tem namorado. Se ela disser que não é porque quer ficar contigo, aí é só encontrar uma brecha pra beijar ela”. E eu fui, cheio de medo e frio na barriga abordando meninas com essa tática, mas não deu certo. Nunca me senti à vontade fazendo isso, e aparentemente elas também não. Para me sentir mais solto comecei a beber álcool, e a situação só piorou. Agora, além de não respeitar o espaço delas, eu chegava com a língua enrolada e cheirando a vodka barata (ou vômito).


Se você é um menino e está lendo isso saiba que quando uma menina diz “não tenho namorado” ela está simplesmente dizendo a verdade, que não tem namorado, e não que quer ficar contigo.


Esse pesadelo acordado seguiu por muitos anos e muitas festas, até que, numa festa quando eu já estava no ensino médio, uma menina veio puxar um amigo meu para ficar com uma amiga dela. Isso era algo comum, uma menina mais velha ou mais desinibida vinha e falava com um amigo para que ele ficasse com uma amiga dela. O que aconteceu de incrível foi que, nesse dia, ela voltou e me puxou também, para ficar com outra amiga dela. Minha emoção foi tanta que não falei uma palavra com a menina, nem olhei direito seu rosto nem seu corpo, só beijei.


No outro dia, a primeira coisa que fiz foi contar para o meu irmão que tinha beijado, e me lembro que estava não só aliviado, mas com raiva. Eu tinha conseguido meu objetivo, tinha beijado, mas esse era só o começo. Agora começava uma competição desenfreada para ver quem ficava com mais meninas.


Uma festa que eu ia e não ficava com ninguém significava tempo e dinheiro perdidos. Já quando eu conseguia beijar era uma alegria, uma maravilha. Mas ficar com uma não bastava, significava que eu talvez tivesse “ficado de romance”. Então o objetivo era sempre ficar com pelo menos duas meninas. O primeiro beijo era pra fazer valer a pena, e a partir do segundo eu me autorizava a realmente curtir, me estender um pouco mais naquela relação em que mal sabíamos o nome um do outro.


Já com 16, 17 anos fui em duas viagens em que a competição aconteceu loucamente: a primeira, para Bariloche, foi tranquila, porque minha referência era um amigo mais velho que tinha ficado com só duas meninas em toda viagem, e eu fiquei com 25 ao todo. Ganhei de lavada, me senti incrível.


Ganhei o que mesmo?


Já no ano seguinte, em Porto Seguro, esse mesmo amigo tinha ido e ficado com mais de 60 meninas. Antes da viagem eu fazia as contas: “certo, são 10 festas, então tenho que ficar com pelo menos 6 por festa, vai dar, vai dar!”. Na primeira festa fiquei com duas, então eram quatro ficadas “para recuperar”.


Conforme as festas iam passando eu ficava com mais meninas: em uma eram seis, na outra quatro, na outra doze, e conforme passavam os dias minha meta ficava cada vez mais difícil. Teve um dia em que fiquei doente, mas fui pra festa mesmo assim. Não fiquei com ninguém, mas me esforcei muito pra curtir. Foi quando me dei conta que não ia conseguir bater meu amigo que consegui começar a me divertir de verdade, e a curtir cada ficada. Ao todo beijei 42 meninas nessa viagem, mas voltei me sentindo um perdedor, até porque eu também não tinha conseguido transar.


Me formei no colégio ainda virgem, para meu fracasso. Minha relação com “o que é sexo” se construiu principalmente de filmes que eu assisti. Com uns 9 anos eu abri uma gaveta de filmes VHS para procurar algo divertido, e lá no meio achei o filme “Top Gun”, uma capa azul com mulheres semi-nuas. Esperei a hora certa e assisti sozinho em casa. Fiquei chocado no começo, mas depois essas cenas ficaram tão normais quanto assistir ao noticiário. Se eu fosse chutar diria que assisti centenas, talvez milhares de horas de pornografia — com esse tempo daria pra ter feito outra faculdade, ou pelo menos uma pós-graduação (risos).


O próprio ato de se masturbar foi algo que aprendi a ser quase que mecânico. Quando era pré-adolescente fazíamos competições de punheta e de tamanho do pau, e participei de brincadeiras em que nos imobilizávamos e fazíamos o outro “pagar uma prenda”, seja recebendo um cuspe no rosto ou até colocando o pau (estando vestido) dentro da boca do outro. Mais do que o prazer de vencer, entendo hoje que o que eu buscava nessa brincadeira era a sensação de dominação.


O prazer aprendi a ser algo muito rápido, mas que posso buscar muitas vezes. Bater punheta se tornou, quando adolescente, em algo quase banal, que cheguei a fazer mais de dez vezes em um dia. Fazia também em lugares inusitados, tipo o banheiro do clube que eu frequentava.


Transar, então, não era pelo prazer, mas pela competição. Entre amigos nós falávamos quem tinha feito o quê com qual menina, sempre nesse tom de conquista, nunca de compartilhamento de um aprendizado. Eu sentia que não tinha com quem falar sobre o assunto, porque via meus amigos transando e eu não. Para minha sorte o colégio acabou, e com ele parte dessa competição maluca, pois parei de ver as mesmas pessoas todos os dias, e no cursinho que eu fiz o clima não era assim tão denso.


Foi com uma menina que conheci no cursinho que tive minha primeira experiência sexual, mas eu estava tão tenso que não consegui gozar. Na hora não achei que era isso, mas hoje sei que foi. Acabamos namorando, e, depois do namoro acabar, voltei às competições, só que agora era diferente: eu era o meu próprio adversário.


Não que eu adorasse isso, mas gostava de competir e gostava de sexo, por isso estabelecia metas de com quantas meninas eu queria transar. Se bem me lembro a meta era uma por mês — e sempre uma diferente, claro. Escutei uma vez de um homem mais velho: “Nunca coloque todos seus ovos numa cesta só, tenha sempre uma segunda opção”. De todas as interpretações que eu poderia ter tido, interpretei como “eu nunca devo dar minha atenção inteira para uma só mulher”, e isso entranhou em mim de jeitos que não consigo entender, muito menos explicar.


Escrever sobre tudo isso é um desafio gigante, mas foi o único jeito que encontrei de ligar os pontos, de olhar pra trás e tomar consciência de porquê, ainda hoje, sabendo que não preciso ser o “macho alfa”, me pego tentando dominar qualquer relação que tenho com mulheres. Custa sair do meu comportamento o que aprendi em mais de 20 anos de treinamento, é dolorido em mim e em quem está à minha volta, mas tenho fé que um dia consigo.


Desde que resolvi seguir o conselho de “ter sempre uma segunda opção”, me relacionei com meninas que me mostraram uma outra possibilidade de relação. Mulheres fortes e gentis, que me ensinaram que homem forte mesmo é aquele que acolhe e que trata uma mulher não como uma flor, intocável, mas como um ser humano.


Até hoje luto contra meu treinamento de olhar com segundas intenções para mulheres, porque aprendi que isso não é um instinto, mas um hábito. Aprendi que o primeiro lugar que se olha uma mulher é nos olhos, não na bunda. E também que mulher é muito mais que “linda” — mulheres são inteligentes, capazes, determinadas. Elogiar a beleza não é feio, mas elogiar só a beleza de uma mulher é seguir um velho padrão que não serve mais.


Entre tantas coisas que quero compartilhar com você, aprendi a não me culpar por ter sido assim: pode parecer resignação, mas foi esse o jeito que eu aprendi com os homens mais velhos, com os filmes que vi e outras referências que tive. Só que não pode parar aqui: agora é hora de me responsabilizar.


A partir do momento que tomei consciência que estou errado, sou eu o responsável por mudar, e em cada ato tratar as mulheres de um jeito diferente, com cada vez mais respeito e gentileza. Assim como eu não quero ser um objeto sexual, como não quero que as mulheres que eu amo sejam objetos sexuais, não quero que mais ninguém seja, e por isso me esforço para não tratar nenhuma mulher assim.


Digo e repito: me exponho assim porque tenho um motivo. Estamos a cada instante educando os mais novos, pelas palavras e pelo exemplo. Escrevo não só para meu desabafo, mas para que outras pessoas pensem criticamente sobre o que fazem e como cada ação influencia nas pessoas ao seu redor.


Vamos cair na real: hiperssexualizar crianças influencia (como faziam comigo e minha “namorada” no jardim de infância). “Brincar” pressionando pré-adolescentes a “ficarem” ou a terem relações sexuais pode causar danos no curto, médio e longo prazo. E escrevo também para que um adolescente possa ler e saber que esse caminho que trilhei não é o único possível, existe um caminho em que não machucamos tanto aos outros nem a nós mesmos.


É preciso muito cuidado, muita atenção, porque os estímulos estão por todo lado: nas propagandas de cerveja barata, nas super heroínas semi-nuas, nos sites e mais sites com conteúdo pornográfico gratuito e explícito feito para homens. Já fui viciado em pornografia, e hoje, aos trancos e barrancos, eu resisto ao meu vício. Já fui obcecado por beijar e transar com o maior número de mulheres possíveis (não só pelo meu prazer sensorial, mas também pelo prazer de contar para outros homens), só que hoje sei que isso não é saudável, por isso me esforço para criar novos hábitos, de relações sexuais baseadas no amor é na conexão, e não no desejo.


A cada dia aprendo como ser mais homem: ser homem não é só reproduzir o que eu aprendi vendo os outros, é criar minha própria forma de interagir com os outros. Entre meus velhos hábitos e meus esforços pra fazer diferente, busco agir com base no amor, na humildade, na coragem.


Nem sempre acerto, verdade, mas sinto que estou cada dia um passo mais perto.


PS: obrigado a todos amigos e amigas que leram e contribuíram com esse texto antes de sua publicação.


PS2: Espero a sua contribuição para que possamos evoluir ainda mais nesse assunto.

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